domingo, 14 de agosto de 2011

Mais que abraços...


'O pai pega a menina no colo e os dois se abraçam. Coisa bem bolada essa dos braços se encaixarem. Uma possibilidade tão perfeita que parece que já foram imaginados também com esse propósito. Mas o melhor do abraço não é a ideia dos braços facilitarem o encontro dos corpos. O melhor do abraço é a sutileza, a mística, a poesia. O segredo de literalmente aproximar um coração do outro para conversarem no silêncio que dá descanso à palavra. O silêncio onde tudo é dito sem que nenhuma letra precise se juntar à outra. O melhor do abraço é o charme de fazer com que a eternidade caiba em segundos. A mágica de possibilitar que duas pessoas visitem o céu no mesmo instante.

A menina e o pai se abraçam. Os olhos se tornam surdos para qualquer registro que esteja fora do ambiente construído. Talvez seja por isso que costumamos fechar os olhos quando abraçamos: para abri-los para dentro. Quando inclui o sentimento, o abraço é um portal que dá acesso às regiões mais arborizadas do coração da gente. Lá onde cantam passarinhos. Lá onde voam borboletas. Lá onde se respira grande sem ter a alma contraída. Lá onde experimentamos o amor ensolarado, por mais nuvens encharcadas de medo que também existam em nós.

A menina abraça o pai e repousa o rosto em seu ombro. Nada nela parece desejar retê-lo. Nada nela parece querer que aquele encontro dure mais do que o tempo que puder durar. Ela parece saber que o abraço não precisa ser demorado para ser longo. Se plenamente sentido, o seu efeito é duradouro. A energia que produz é capaz de circular por tempo indefinido nas vidas que o experimentam. E, depois, pode ser acionada a qualquer momento no lugar da memória onde são guardadas as belezas que não perdem o frescor.

A menina adormece abraçada ao pai. Ele se movimenta vagarosamente de um lado para o outro, sob o ritmo de uma música que somente ele ouve e que ela deve sentir em algum lugar do seu sonho. Nem todos os abraços se transformam em sono e isso é tão verdadeiro quanto a constatação de que todos os genuínos oferecem repouso. Armam redes na alma da gente, onde as emoções se deitam e balançam aconchegadas. Não há lugar algum para onde ir enquanto acontecem. Apenas ficar ali, dentro deles, e dividir esse conforto.

Adormecida no abraço do pai, a menina o envolve com seus braços, dois pequenos laços de fita. O abraço é também isso: um presente que duas vidas oferecem uma a outra e desembrulham juntas.' (Ana Jácomo)

Pai, obrigada por teus abraços...
Obrigada por tantos abraços...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Impermanência...


Um dos princípios do ensinamento budista, e pilar de toda a sua filosofia, a IMPERMANÊNCIA é uma das lições mais caras e difíceis de aprendermos, e que deveríamos praticar todos os dias. Quase todo o sofrimento humano decorre do apego que mantemos pelas pessoas, objetos ou fatos que marcam a nossa vida. Reflita e veja a verdade nesta afirmação. Sabemos que tudo tem um fim, mas vivemos como se tudo fosse durar pela eternidade, por isso ainda nos espantamos com a morte, nos deprimimos com frustrações, sofremos com as traições, quase morremos com os rompimentos de relacionamento.

Não é fácil aceitar a IMPERMANÊNCIA, nem desapegar-se de coisas tão queridas, mas como disse o mestre Dogen: “Ensinamento que não parece forçar alguma coisa em você, não é verdadeiro ensinamento”. Pratique diariamente a IMPERMANÊNCIA, refletindo nas mudanças que já ocorreram com você e concentre-se na felicidade que é simples, mais simples do que imaginamos.Veja se você não está colocando seus sonhos em prateleiras altas, em tempos e lugares distantes demais. A felicidade costuma estar sempre perto de nós, nos lugares mais simples, ao alcance das mãos.Por isso, ainda hoje escutamos pessoas arrependidas dizerem: “Eu era feliz e não sabia”. Você é feliz por estar aqui e deveria saber disso, sempre!

Paulo Roberto Gaefke